quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Corpo perfeito?


"O sujeito se agarra à imagem, ao sentido que a imagem fornece para ele." (LACAN, 2007)

Nós mulheres teimamos em brigar com a balança, planejar dietas mirabolantes e variadas que por vezes não duram nem uma semana ou não dão o resultado esperado. Queremos fórmulas milagrosas para perder kg em dias, nos matamos na academia e fazemos até o impossível em prol desta nobre causa... a busca do corpo quase perfeito, porque não existe perfeição. Eu sempre detestei dieta, mas desde a adolescência aprendi a controlar a boca nervosa. Confesso que comia salgadinho cebolitos com feijão quando tinha meus 13 ou 14 anos, comprava caixas de chocolate e as escondia a sete chaves para descontar o stress das briguinhas com o namoradinho ou a contrariedade com a família. Mas aos 15, a consciência pesou e as coisas mudaram. Adotei a academia por longo tempo, mas como os exercícios são repetitivos, optei por praticar esporte, daí foram anos de tênis. Entrando na fase adulta, as coisas mudam, hábitos errados como o do cebolitos e do chocolate foram abandonados e os gostos também. Nunca me livrei de uns kg extras, mas também nunca entrei em parafuso. O que me ocasionou mudanças bruscas foi gravidez, questões hormonais e um período infernal de depressão já superado há tempos
Hoje, próximo aos 30, resolvi adotar esportes de impacto que me ajudam, inclusive, a reduzir o stress. Devido a ansiedade e ainda pela questão do sobrepeso, busquei ajuda com uma endocrinologista, ela prescreveu Fluoxetina 40mg. Senti uma enorme diferença em meu comportamento, todavia durante os primeiros dias de uso, minha pressão arterial sofreu alterações, normalmente é 100x70mmHg, passou a 140x90mmHg, o que me deixou assustada. Depois, foi normalizando e estabilizou. Conheço pessoas que sentem sono exageradamente pelo uso da Fluoxetina, mas minha insônia permanece firme e forte, infelizmente. Analisando o meu quadro antes de fazer uso desta medicação, além de estressada, sem concentração, comendo descontroladamente à noite e ansiosa, eu estava logorreica ou seja, falando sem parar e sem controle. Sei bem os contras dessa medicação e o quanto ela pode ser viciante, mas foi necessário! Minha herança genética predetermina meu sobrepeso. Contudo, se eu quiser mudar de verdade tenho que adotar regras na vida, uma delas é a reeducação alimentar somada a atividades físicas, recomendo a todos, pois hábitos alimentares saudáveis previnem doenças crônicas, tais como as cardiovasculares, assim como são imprescindíveis os exercícios físicos. 
Voltando a matéria do Vírgula (http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/lifestyle/2011/12/07/289785-ensaio-de-karlie-kloss-para-vogue-italia-e-criticado-por-promover-anorexia), é chocante ver a que ponto a industria da moda faz com algumas mulheres. É assustador ver o quão bizarro um ser humano pode se transformar como essa modelo Karlie Kloss (foto). Na foto a única coisa bela é o que ela está calçando...adorei a sandália!! E o pior, muitas meninas que sonham em se tornar modelos e embolsar cachês milionários se submetem a isso. A cobrança pela magreza e pela suposta perfeição adoece a alma de muitas pessoas, além de ocasionar uma cegueira perigosa. Mesmo ficando só pele e osso, a pessoa acredita ainda estar gorda ou mesmo obesa, isso é anorexia. 
Alguns pais não percebem a tempo, a mudança nos hábitos alimentares, como a recusa por refeições, magreza excessiva, por vezes apresentam mal estar pela falta de nutrientes necessários a manutenção das funções do organismo e outras coisas mais. O transtorno alimentar acomete na maioria das vezes, as jovens. Então, quando finalmente os responsáveis/família notam que há algo errado, na maioria dos casos já é tarde demais, o transtorno alimentar e suas consequências passam a representar um problema efetivo. 
Os transtornos alimentares são tidos como uma epidemia que atinge principalmente adolescentes e jovens. É uma patologia com crescente incidência, que afeta não somente o físico, ocasionando a visível deterioração do corpo, mas também afeta a saúde mental. Dentre os transtornos alimentares mais comuns estão a anorexia e a bulimia. Sendo a anorexia, a recusa do alimento, somada a visão que o paciente tem de si mesmo, ao olhar-se no espelho por mais magro que esteja acredita estar obeso, ou seja, sua auto-imagem torna-se distorcida do real e com isso, busca artifícios para emagrecer mais. São pessoas perfeccionistas, tendem a transtornos obssessivos compulsivos e são magras ao extremo. Quanto à bulimia, a pessoa entrega-se a farra gastronômica desmedida e por culpa, provoca vômitos a fim de eliminar o que foi ingerido. Não são organizadas, são impulsivas, não são magras demais e normalmente tem crises nervosas, tendendo a comer para buscar saciedade, mas vomitam em seguida.
A anorexia coloca em ato a tentativa de fazer valer o poder e o controle da imagem, tendo como objetivo apaziguar o sujeito. É possível situar aí a aspiração anoréxica de existir como "pura imagem" (SORIA, 2001, p.38). Estimuladas por vaidade, exposição na mídia, viciadas em dietas, baixa auto-estima e outras situações levam pessoas a distorcerem a realidade, causando mal a si próprias.
O site HowStuffWorks relembra casos como por exemplo, da modelo paulista Ana Carolina Reston Macan que morreu aos 21 anos em decorrência de complicações da anorexia nervosa. Imagina que ela tinha 1,70m e chegou a pesar 42kg e o detalhe, ainda assim usava medicação para emagrecer. Fez tratamento psicológico e chegou a 46kg, mas apesar do tratamento a anorexia persistiu e a modelo foi internada com quadro de insuficiência renal. Em decorrência disso a pressão arterial teve queda contínua levando a dificuldades respiratórias. Como a imunidade dela estava extremamente baixa ficou suscetível a infecções, o que acarretou a sua morte por septicemia, que é uma infecção generalizada. Ela morreu pesando 40kg. Essa é mais uma história de sofrimento, que poderia ter sido evitada.
Meninas se submetendo a ditadura da moda, sob pressão psicológica contínua para manter padrões que por vezes são impossível devido a estrutura física e chegam até a eliminar costelas para alcançar medidas perfeitas. Desde quando isso é normal?
Sempre soube que brasileiros são loucos por bunda, somado aos itens quadris largos, peito e coxa, são suficientes para levar os machos a babar e uivar como lobos famintos. A estrutura física da mulher brasileira, devido a mistura de raças atrai os mais variados tipos masculinos. Mas não posso desconsiderar que há quem goste de mulheres magras, tem gosto para tudo. Observando as características físicas gerais de japoneses, chineses, europeus, africanos e outros, é nítido que possuem um padrão, contudo o brasileiro é mix de tudo isso e mais um pouco. 
Vejo pessoas aderindo a dietas que acabam em ganho ao invés de perda de peso como o proposto, pessoas que lutam para adaptar a um novo e milagroso ritual de emagrecimento com cápsulas, pílulas e etc. que muitas vezes, dão certo. Mas quando suspendem o uso, ganham o que perderam ou muito mais. Ainda a compulsão por cirurgias plásticas que transformam mulheres em aberrações, até onde isso vai? 
Não sou contra a cirurgia estética, mas sou extremamente a favor do bom senso. Dou apoio total as mulheres que se submetem a melhorar o que as incomoda, que buscam um profissional capacitado e que as assistem dando-lhes informações concisas e que as ajudam a limitar ou podar certas vontades malucas. Quem tem peito caído, por que não botar os meninos de pé? Quem tem aquela sobra de pele na região abdominal, por que não fazer uma abdominoplastia? Ou uma lipo, quando recomendada/necessária?
Sei que tem mulheres que não fazem plástica na cutícula, porque não existe esta possibilidade. Mas para tudo nessa vida, volto a ressaltar, ter bom senso!!
Acredito na força de vontade que temos e não reconhecemos, acredito em ajuda psicológica, acredito em atividade física e em esportes. Acima de tudo, acredito que as pessoas podem se dar valor e evitar submissões prejudiciais que por vezes tem consequências fatais.

REFERÊNCIA:

LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma (1975-76). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. 

SORIA, N. O corpo na anorexia: da imagem ao semblante. Correio: Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, São Paulo, n.35, 2001, p.38-42.


http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=82

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